sábado, 1 de julho de 2017

40. A urbanização no estado de São Paulo no início do século XX

   

A distribuição da população brasileira, no início do século XX, foi redefinida pelas profundas mudanças verificadas em função da produção cafeeira das últimas décadas do século XIX. Essa redistribuição populacional estava diretamente ligada à concentração das principais atividades econômicas e ao crescimento urbano. Um dos fatores decisivos para o crescimento da população brasileira, principalmente em São Paulo e na região Sul, foi o grande número de imigrantes europeus que entrou no Brasil, desde meados do século XIX e início do século XX.
A grande entrada de estrangeiros foi determinada principalmente pela expansão cafeeira e pela substituição de mão de obra escrava pela assalariada. Entre 1890 e 1929 entrou no Brasil o maior contingente de imigrantes. Foram cerca de três milhões e quinhentos mil. Mais de um terço desses estrangeiros era composto de italianos (um milhão e trezentos mil), sendo seguidos por portugueses, espanhóis, alemães e outras nacionalidades.
Apesar de o destino destes imigrantes ser as fazendas de café, grande parte deles, insatisfeitos com as condições de trabalho no campo, deslocaram-se para várias cidades, principalmente São Paulo, cujas perspectivas ligadas à indústria prometiam oferecer mais chances de uma vida melhor.
O processo de crescimento urbano se estabeleceu sem que houvesse a estrutura necesssária para suportá-lo e a falta de empregos gerou enormes dificuldades para a população, com grande número de pessoas vivendo precariamente, sobrevivendo à superexploração e aos baixos salários nas indústrias, empregos temporários e subempregos, péssimas condições de moradia em virtude do crescimento de cortiços nos bairros operários do Brás, da Mooca e do Bom Retiro, em que pequenos quartos destinavam-se a numerosas famílias, bem como problemas com o transporte, o abastecimento de água, alimentos insuficientes e a falta de saneamento básico que levava à proliferação de doenças e epidemias.

Imigrantes posando para a foto no pátio central da Hospedaria dos Imigrantes, 1890. São Paulo (SP).





Apesar de não possuir, de modo geral, a infraestrutura necessária para o crescimento populacional, a cidade de São Paulo apresentou transformações através da expansão de alguns serviços urbanos que nem sempre estavam acessíveis a toda população, mas que eram notáveis e surpreendentes para a época.
Alguns espaços públicos passaram por um desenvolvimento, como a instalação do serviço de bondes e trens, a implantação de luz elétrica, telégrafos, rádios, serviços telefônicos, calçamentos, construção de parques, avenidas e um crescente trânsito de automóveis que mudou rapidamente o modo de viver e de conviver na cidade.
O trabalho e as condições de vida dos trabalhadores das fábricas recém-criadas eram muito difíceis. Sua jornada de trabalho era de até 18 horas por dia, nas piores condições ambientais, sem qualquer proteção contra acidentes de trabalho. Além disso, não possuíam estabilidade, descanso, licenças médicas ou férias. Os salários eram baixos e as mulheres e crianças eram exploradas.

Praça da Sé, início do século XX. São Paulo (SP).




Praça da Sé, início do século XX. São Paulo (SP).


O número de horas que trabalhavam por dia dependia da vontade de cada patrão. De modo geral, operavam, em média, das 7 da manhã até as 9 da noite, uma vez que o período de horas de trabalho por dia só foi determinado por lei na década de 1930.
Havia muitas favelas e cortiços sem as mínimas condições de higiene e saneamento básico, onde moravam imigrantes, como espanhóis, italianos, alemães, libaneses, entre outros, além de um grande número de migrantes da região Norte e Nordeste.

Vista interna da Hospedaria dos Imigrantes em 1905. São Paulo (SP).




Vista interna da Hospedaria dos Imigrantes em 1905. São Paulo (SP).


A maioria das fábricas funcionava em prédios adaptados, diferentemente de hoje, que são construídos especificamente para esse fim. Com isso, o trabalho era mais penoso, pois a ventilação era precária e o ambiente se tornava ou muito quente ou muito frio. Os acidentes de trabalho eram frequentes e não existia qualquer tipo de indenização.
As mulheres e as crianças eram utilizadas como operários com remuneração abaixo da que recebia o trabalhador adulto masculino, representando, em 1912, 67% dos trabalhadores das indústrias têxteis de São Paulo.
A Mooca foi uma das primeiras regiões da cidade a enfrentar o processo de industrialização, que teve início no final do século XIX. A região se tornou atrativa pela proximidade com a antiga ferrovia Santos-Jundiaí, então responsável pelo escoamento da produção cafeeira para o litoral paulista. Por essa proximidade, as empresas, movidas a carvão, instalaram-se na Mooca e construíram várias chaminés. Dessa forma, é comum encontrá-las espalhadas pelo bairro, como no terreno da antiga Companhia Antarctica Paulista.

Área industrial na Mooca, 2015. São Paulo (SP).




A classe operária nesse período era composta predominantemente por imigrantes italianos, portugueses e espanhóis. Era comum, contudo, que parte desses imigrantes, após algum tempo, auxiliado pela família que era frequentemente numerosa e com muito trabalho, começasse a prosperar e, em muitos casos, abrisse seu próprio negócio.
O tempo livre dos trabalhadores era escasso, contudo, ainda assim, organizavam-se em sociedades recreativas, casas de jogos e apostas, festas religiosas e piqueniques. Alguns grupos organizavam também algumas representações teatrais em que as associações encenavam peças com conteúdo crítico que denunciava as suas condições de vida e expectativas de mudanças.
Os jornais operários denunciavam as péssimas condições dos trabalhadores e funcionavam como um canal dos diferentes grupos que os publicavam, podendo ser de vários partidos.
O grande número de analfabetos exigia que, na maior parte das vezes, a leitura dos jornais e dos manifestos fosse feita em voz alta para que todos tivessem acesso às informações e pudessem participar das decisões.
A circulação desses jornais não era proibida inicialmente, contudo, com a consequente participação e envolvimento dos trabalhadores, gradativamente passaram a ser censurados e seus redatores perseguidos pela polícia.

AMARAL, Tarsila do. Operários. 1933





AMARAL, Tarsila do. Operários. 1933. Óleo sobre tela, 150 cm x 230 cm. Acervo Artístico-Cultural do Palácio do Governo do Estado de São Paulo. Campos do Jordão (SP).


       
       



       

       












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