sábado, 1 de julho de 2017

35. A importancia do tropeirismo para o estado de São Paulo

   

O tropeirismo, trabalho de criação, condução e comercialização do gado, teve início em meados do século XVII e foi responsável pela integração entre o litoral e o primeiro planalto, também ampliando o povoamento e o fluxo de gado do Sul para o centro do país.
Era comum que muitos tropeiros, além de conduzirem tropas, também fossem proprietários de terras. Eles compravam os animais no Rio Grande do Sul para vendê-los em Sorocaba (SP). Cruzavam Santa Catarina e a região de Curitiba ou qualquer outro ponto intermediário entre a Lapa e Castro e, após viajar o dia todo, pagavam ao proprietário da invernada o aluguel para o descanso das tropas.
As mulas eram os animais de carga mais usados para estas empreitadas por serem bastante resistentes, terem grande capacidade de equilíbrio e por passarem por trechos difíceis com muita carga e passividade.
Um desses animais era ensinado para conduzir os demais. Geralmente, tinha-se o costume de se enfeitar a mula-guia com um penacho na cabeça, além de outros ornamentos, como conchas e fitas. O animal também carregava um cincerro pendurado ao pescoço. Quanto às demais mulas, eram amarradas umas às outras pelo rabo de modo que o transporte fosse seguro e que caminhassem sempre em linha.

A rota dos tropeiros





A rota dos tropeiros




A herança dos bandeirantes e dos tropeiros


Um bandeirante ou tropeiro era iniciado na profissão por volta dos 10 anos, acompanhando os adultos. O vestuário do sertanista, composto de chapéu grande de feltro, camisa de pano forte como lona, manta que era jogada sobre os ombros com uma abertura no centro (ao estilo dos gaúchos) e botas de couro que chegavam até a metade da perna para proteção contra animais peçonhentos, fundamental para a sobrevivência nas matas e campos.
Dos tropeiros e dos bandeirantes herdamos muitos costumes alimentares, como toucinho, feijão-preto, farinha, pimenta-do-reino, café, fubá e coité. Nos pousos, apreciava-se o feijão-preto com pouco molho e com muitos pedaços de carne de sol e toucinho. Esse prato ficou conhecido pelo nome de feijão-tropeiro que, como antigamente, é servido com farofa e couve picada. A cachaça fazia parte do cotidiano desses homens, especialmente nos dias de muito frio ou para evitar a picada de insetos.
Um de seus principais utensílios era uma grande sacola ou baú – em que guardavam suas roupas e outros instrumentos de valor; também tinham uma sela cheia de instrumentos que se suspendia em pesados estribos. Costumava-se chamar de “malotagem” os apetrechos e arreios necessários a cada animal, e de “broaca” os bolsões de couro que iam sobre a cangalha para guardar mais mercadoria.
Algumas profissões que conhecemos atualmente são oriundas do desenvolvimento das viagens sertanistas no estado, tais como a de rancheiro (dono de rancho) e a de ferrador, responsável por pregar as ferraduras nos animais das tropas e que, às vezes, também atuava como veterinário. Peão era todo amansador de equinos e muares à moda do sertão.
Pode-se notar, portanto, a importância do movimento sertanista para o povoamento do interior do Sul e Sudeste do Brasil. Com o tempo, esses homens abandonaram a atividade de caça e venda de escravos indígenas e passaram a se dedicar ao comércio e transporte de gado.
Essa atividade surgiu de forma paralela à produção dos engenhos de açúcar. Nesses locais era muito utilizada a força animal para mover as moendas, que espremiam o caldo da cana. Além disso, as terras nordestinas, naquela época, estavam quase que inteiramente destinadas ao cultivo desse produto. Por isso, muitos engenhos passaram a consumir alimentos, como o charque, vindos de outras regiões do país. A maioria desses alimentos era trazida em razão do comércio do gado e da atividade dos tropeiros no Sul do país.
Essa atividade interligou várias regiões do país, especialmente o Sudeste com o Sul, pois o gado era trazido da região de Vacaria (atual estado do Rio Grande do Sul) para chegar a São Vicente, onde era então vendido a outras tropas que levariam os animais até a região Nordeste.

Museu dos Tropeiros. Castro (PR).




Museu dos Tropeiros. Castro (PR).




Glossário


Cincerro: chocalho ou sineta colocado no pescoço de um animal preso a uma coleira. É comum em bovinos ou equinos para guiar uma tropa ou o gado.
Coité: molho de vinagre com fruto cáustico espremido.



       

       


       












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