sábado, 8 de outubro de 2016

58 - A formação da cultura de São Paulo

   
Nosso país, o Brasil, assemelha-se a um grande mosaico formado por milhões de pequenas peças que representam cada um de nós. Somos um povo constituído pela mistura de vários grupos humanos formado por pessoas nascidas no Brasil e em muitos outros países e continentes, as quais adotaram a nacionalidade brasileira. São pessoas com características físicas diferentes, sotaques e costumes diversos.
A atuação dos padres missionários contribuiu fortemente para o uso das línguas indígenas, uma vez que encontraram muitas dificuldades ao usar a língua portuguesa na catequese dos índios.
Somente na segunda metade do século XVIII, com a implantação do uso da língua portuguesa por meio de decreto do governo de Portugal, é que se obrigou o ensino da gramática portuguesa no Brasil.
A contribuição indígena à cultura do estado de São Paulo é muito expressiva em diversos aspectos, principalmente no que diz respeito aos hábitos alimentares e em muitas expressões e vocábulos incorporados no vocabulário da região como: Itu, Tietê, Pacaembu, Ibirapuera, Cumbica, Guarulhos, Cubatão, Itanhaém, Tatuapé, Guarujá, entre tantos outros.
Houve também uma grande influência das culturas africanas no modo de falar do povo brasileiro, principalmente nas regiões em que o trabalho escravo foi mais marcante.
Um exemplo dessa influência são as inúmeras palavras de origem africana que foram incorporadas ao nosso idioma como: dengo, cafuné, molambo, samba, moleque, batuque, macumba, cachimbo, angu, caçamba, quitute, camundongo, cafajeste, mocotó, jiló, mucama, catinga, tanga, entre muitas outras.
A base da vida religiosa brasileira também foi bastante diversa. Povos de culturas e origens diversas, convivendo em um mesmo espaço, produziram uma mistura de crenças e religiões.
Os padres jesuítas e outras ordens religiosas que vieram para o Brasil tentaram, com a catequese, diminuir os conflitos existentes entre os portugueses e os indígenas. Porém, ao criar escolas para crianças indígenas, ensinavam também muito da cultura europeia.
Já entre os africanos, que foram trazidos como escravos para o Brasil, a prática de suas religiões de origem era uma forma de resistir à escravidão e continuar com a sua cultura no Brasil. Proibidos de praticar suas crenças, eles acabaram adaptando seus cultos. Iemanjá, a mãe de todos os orixás, passou a ser também Nossa Senhora da Conceição. Oxalá, que originalmente era o orixá da criação, passou a ser conhecido como Nosso Senhor do Bonfim.
No Brasil colonial, a mais popular de todas as festas era realizada em louvor ao Divino Espírito Santo, festa que acontecia em Portugal desde o século XIV. Em tal ocasião, era coroado um imperador que desfilava pelas ruas com sua corte. Semelhantemente a essa festa, os africanos escravizados no Brasil encenavam a eleição de um rei, que era coroado e desfilava pelas ruas com sua corte.
Muitas cidades paulistas realizam grandes festas do Divino que duram dias como: São Luiz do Paraitinga, Lagoinha, Nazaré Paulista, Cunha, Mogi das Cruzes, Salesópolis, Piracicaba, Tietê, Anhembi e Laranjal Paulista.
Nesta festa popular eram organizados grupos/bandeiras que percorriam a cidade e o interior visitando as famílias e oferecendo bênçãos do Divino Espírito Santo. Em troca, os foliões recebiam ajuda financeira e alimentos. Isso antecedia a festa do Divino que se realizava na volta das duas bandeiras.

Praça central de São Luiz do Paraitinga com capela do Divino Espírito Santo ao fundo.




Praça central de São Luiz do Paraitinga com capela do Divino Espírito Santo ao fundo.


Em Juquitiba, Santa Isabel, São José dos Campos, Joanópolis, Atibaia, Piracaia e muitas outras localidades por todo o estado acontece a Dança de São Gonçalo, diante do altar do santo, com a função de pagar promessa, sem data determinada. Inicia-se com reza cantada por todo o público, em solo e coro, sem instrumentos, tirada pelo capelão (pessoa que conhece os cânticos e tem boa voz). Na dança, cantam os violeiros, especialmente convidados e especialistas na função.

Festa em São Benedito. Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito de Guaratinguetá. Guaratinguetá (SP).




Festa em São Benedito. Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito de Guaratinguetá. Guaratinguetá (SP).


Já o jongo é um folguedo que, embora não tenha data fixa para ser realizado, geralmente é apresentado nas festas juninas, em homenagem a São Benedito, bem como em comemoração à data da abolição da escravatura (13 de maio).

Jongo




Jongo


O tipo de coreografia mais comum é o de roda, com a apresentação de um casal ao centro. Os instrumentos utilizados são: tambores, chocalhos (chamados guaiá ou angoia). As cantorias são chamadas de “pontos”. O jongo é executado em Guaratinguetá, São Luiz do Paraitinga, Pindamonhangaba, Cunha e Piquete.
A Festa de Reis é um evento popular de origem religiosa que, com forte influência da cultura portuguesa no Brasil, acontece em diversos locais do país, ainda na atualidade. Essa festividade busca relembrar a visita que os três reis magos fizeram ao menino Jesus, recém-nascido, e costuma ocorrer na segunda quinzena de dezembro até o dia 6 de janeiro. Essas festas são comuns em Altinópolis, Barretos, Ribeirão Preto, Votuporanga, Freguesia do Ó, entre outras localidades.
A cidade de São Paulo é conhecida pela sua diversidade, miscigenação e pluralidade de culturas resultante da convivência de muitas nacionalidades.
Tal diversidade garante a existência das mais variadas festas populares que acontecem todo mês nos bairros da cidade. Em bairros de colonização italiana, como Brás, Bixiga e Mooca, pode-se acompanhar em maio a Festa de Nossa Senhora de Casaluce, uma das heranças trazidas pelos imigrantes.
O mês de junho é dedicado a São Vito; em agosto acontece a Festa da Nossa Senhora Aquiropita (Achiropita); e entre setembro e outubro acontece a Festa de San Gennaro.
Da mesma forma que há uma grande variedade de influências nas festas, na religiosidade, no vocabulário e na cultura de modo geral, a culinária típica do estado de São Paulo também foi influenciada fortemente pelo encontro entre as culturas indígenas, africanas e europeias.

Festa de Achiropita.




Festa de Achiropita.


Durante os séculos XVI e XVII, quando a capitania de São Paulo, antes chamada de São Vicente, era muito pobre, pois estava longe do eixo nordestino produtor de açúcar, os colonizadores foram adquirindo parte dos hábitos alimentares e agrícolas dos índios, que incluíam as farinhas (de mandioca, de trigo e de milho). A farinha de mandioca, por exemplo, era o alimento preferido dos bandeirantes, pois se conservava por mais tempo. Além disso, os bandeirantes costumavam plantar feijão, abóbora e milho durante o percurso para comê-los no retorno de suas viagens.
O milho tornou-se muito importante ao longo dos séculos na cultura alimentar paulista, por meio de farinhas, canjicas, curaus, pamonhas, entre outros. O uso da mandioca, do milho, do feijão, da batata-doce e de outros alimentos é influência das culturas indígenas incorporadas pelas tradições dos tropeiros.
A vinda de imigrantes italianos, espanhóis, poloneses, japoneses, alemães, libaneses, entre outros povos e etnias introduziu uma imensa variedade de pratos e iguarias que, com o tempo, foram totalmente incorporados ao cardápio paulista. Os europeus trouxeram para o planalto paulista a cultura do trigo, da uva, do figo, do marmelo e da cevada.
Dos italianos vieram as massas e as pizzas (cuja adaptação paulista tornou-se bastante peculiar e diferente da original); dos sírios e libaneses vieram as esfirras, os quibes, entre outros; dos japoneses vieram o gosto pelo chá, o sushi, o sashimi e o uso de ingredientes como o tofu e o shoyu nos pratos; enfim, cada povo trouxe elementos que fizeram de São Paulo, principalmente a capital, um importante polo gastronômico com sabores do mundo inteiro.
Ao longo do litoral, a culinária está impregnada da influência dos povos africanos, destacando-se o uso do leite de coco, da pimenta-malagueta e da banana em vários pratos, assim como nos diferentes modos de preparo de frango, peixe e doces.
As comidas preparadas com produtos vindos do mar, como camarão, marisco e, principalmente, peixes, fazem parte da cultura alimentar do paulista que vive no litoral com os bolinhos, as caldeiradas e os cozidos.

A formação da cultura de São Paulo - cultura do trigo





A formação da cultura de São Paulo - cultura do trigo



A formação da cultura de São Paulo - Uva




A formação da cultura de São Paulo - Uva



A formação da cultura de São Paulo - Figo




A formação da cultura de São Paulo - Figo



A formação da cultura de São Paulo - Alimentos





A formação da cultura de São Paulo - Alimentos



A formação da cultura de São Paulo - Pizza





A formação da cultura de São Paulo - Pizza



A formação da cultura de São Paulo - Sushi






A formação da cultura de São Paulo - Sushi



A formação da cultura de São Paulo - Quibes





A formação da cultura de São Paulo - Quibes



A formação da cultura de São Paulo - Esfirras






A formação da cultura de São Paulo - Esfirras




Glossário


Mosaico: pavimento de ladrilhos ou pequenas pedras coloridas que pela sua distribuição formam desenhos.
Sotaques: pronúncia característica de um indivíduo, de uma região, etc.
Molambo: farrapo, pano velho rasgado e sujo.
Angu: papa espessa de fubá ou de farinha de mandioca.
Orixás: divindades cultuadas pelos iorubás, trazidas para o Brasil pelos africanos, também conhecidos como guias.



       





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